CLARENCE SEEDORF ME REPRESENTA

O torcedor brasileiro aprendeu a desdenhar dos campeonatos regionais. Sobretudo as novas gerações que já nasceram em uma época onde a Taça Libertadores é o céu e o regional a escória.

Em termos práticos o referencial é esse mesmo. Mas termos práticos são aplicados facilmente ao cotidiano, nem tanto ao futebol.

A geração anterior, talvez a qual eu pertença, cresceu em um tempo onde os regionais viveram talvez sua última grande fase, com times sendo montados para a sua disputa, com estádios lotados, rivalidades acirradas.

Não escondo de ninguém que a minha mais emblemática e apaixonante lembrança dentro do futebol se deu em um Campeonato Paulista, aquele de 1993.

Os tempos são outros, as perspectivas e expectativas mudaram, o torcedor mudou e em grande parte a boleirada também está diferente – em grande parte e infelizmente para pior.

Tenho para mim que time de futebol existe para vencer. Não necessariamente deva vencer, já que essa é a premissa válida para o oponente. Mas uma vez no certame, a obrigação é lutar pela vitória. E a grandeza dessa vitória se dá muitas vezes mais pelo tocante de momento do que pelo peso da competição.

Foi o que disse ontem o meia D´Alessandro, do Internacional, ao final do jogo em que o seu colorado sagrou-se campeão Gaucho. Lembrando da obrigatoriedade que todo profissional da bola deve ter ao entrar em campo defendendo as cores do clube que o abriga.

Foi o que disse, emocionado e segurando o choro, o técnico Osvaldo de Oliveira, comparado o título de seu Botafogo aos outros de sua carreira, muitos deles maiores que essa conquista, mas não menos especiais, pelo simples fato de ter sido ele educado na vida de futebolista através do campeonato carioca dos anos 1950 em diante.

Mas nenhum testemunho joga mais por terra o argumento dos que desdenham da vitória regional do que as palavras ditas por um cara que venceu “somente” quatro Uefa Champions League, sendo o único a realizar o feito por três clubes diferentes. Três instituições do planeta bola como o Ajax, o Real Madrid e o Milan. Desfilando seu talento pelos melhores e mais emblemáticos estádios do mundo, com histórico invejável em sua seleção e já sendo parte do hall dos grandes da história.

Se Clarence Seedorf aceita atuar em gramados pouco ou nada atraentes, em estádios minúsculos, para públicos muitas vezes irrisórios. Se o holandês que fala um português melhor que o de muito boleiro brazuca, chora e valoriza o seu primeiro titulo pelo Fogão, ainda que seja o “carioquinha”, que moral temos nós para desmoralizar este feito?

O máximo que nós podemos fazer é pedir melhorias estruturais, organizacionais e uma adequação ao atual calendário. Desqualificar o título, jamais.

Futebol é muito mais do que a ostentação da taça de ocasião. É a ostentação da simples existência daquelas cores que te representam e que mediante a atuação de sujeitos como Seedorf, as dignificam e as fazem lhe saltar os olhos, lhe saltar da alma.

“É mais uma grande emoção na minha vida profissional. Dedico o título à minha família. Estou muito emocionado e cada título que eu conquistei até hoje tem algo diferente, cada um é sentido de uma forma” – Seedorf, Clarence.

Clarence Seedorf me representa.


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